Há vinhos que fico anotando para um dia. O Château La Croizille 1999 é um deles — guardo na lista há tempo, ainda não cheguei. Mas esta nota é meio diário de busca, meio anotação para mim mesmo: o que descobri pesquisando, e por que ainda quero esta garrafa.
Saint-Émilion é o cenário, mas o La Croizille tem uma história menos óbvia. Fica em Saint-Laurent des Combes, num platô calcário-argiloso a uns 50 metros de altitude, encostado em vizinhos enormes — Tertre Roteboeuf, Troplong Mondot, La Mondotte. Tem o único vinhedo em terraços de Bordeaux, dizem. São apenas cinco hectares, em bloco único, e sai daí uma produção pequena, de cerca de 26 mil garrafas por ano.
A safra que reinventou o château
A 1999 não é uma safra qualquer aqui. Foi nela que a família De Schepper, dona da propriedade desde 1996, decidiu fazer algo diferente. Antes, o La Croizille era um Saint-Émilion Grand Cru competente, sem mais. A partir da 1999 vira projeto: seleção estrita das uvas, 100% barricas novas, rendimentos baixos para concentrar a fruta, vinificação parcela por parcela.
A composição é típica da margem direita: cerca de 70% Merlot, 30% Cabernet Sauvignon. Maturação entre 15 e 18 meses em carvalho francês novo. Resultado, segundo as notas que li: um vinho denso mas com tensão, que demora a abrir, com aromas de frutas pretas, especiarias e baunilha integrada. Na boca, taninos firmes que precisam de tempo.
Tempo importa aqui. As notas de quem provou recomendam decantar até uma hora em safras jovens, e em vinhos com idade — como o 1999, que já tem mais de duas décadas — basta o suficiente para tirar sedimento.
Da Bélgica para Saint-Émilion
A história da família De Schepper começa em 1938, em Bruxelas, com licores e destilados. Em 1950 chegam a Bordeaux com a compra do Château Tour Baladoz — também em Saint-Émilion, vizinho colado ao La Croizille, que adquiririam quase meio século depois. Pelo caminho compraram outras propriedades: Haut Breton Larigaudière em Margaux, Tayet em Bordeaux Superieur, Lacombe Cadiot, formando um grupo discreto mas consistente.
A própria construção do La Croizille é parte da história: pavilhão moderno em vidro e madeira, projetado para conviver com o terroir antigo. Ganhou prêmio de Best of Wine Tourism. Hélène De Schepper, da segunda geração, hoje cuida da comunicação.
E em 2022, depois de quase três décadas de trabalho silencioso, o château recebeu a promoção: passou de Grand Cru a Grand Cru Classé. Demorou, mas chegou.
Por que ainda quero
Pelas notas e pontuações recentes — 92 pontos para a 2020, 92 para a 2022, 92 para a 2023 — o La Croizille mostra consistência no nível alto, ano após ano. Não é um château que aparece nos rankings de revistas grandes, e talvez seja por isso que ainda interessa: continua sendo discovery, não unanimidade.
A 1999 especialmente tem peso simbólico. É a safra-fundadora da nova fase. Provar o La Croizille dessa safra, hoje, é provar o gesto inicial de uma família apostando no que viria. E é provar Saint-Émilion num momento favorável — 1999 foi ano clássico em Bordeaux.
Por enquanto fica na lista. Quando chegar, conto.

Texto baseado em pesquisa, escrito em abril de 2026. Mais sobre o produtor no site oficial do Château La Croizille.